quinta-feira, 1 de setembro de 2011

As várias faces da mesma moeda


Hoje a vida me ensinou seis lições entre a Cohab e a Praia Grande. Fazia tempos, confesso, eu não pegava ônibus. Não porque eu ando de carro. Eu nem tenho carro. Mas por que eu moro no Centro Histórico de São Luis, perto do Teatro Arthur Azevedo, perto do futuro teatro municipal, perto do mercado das Tulhas, do Mercado Central, perto dos bancos e de todo o comercio principal. Nem preciso ter carro apesar de ter uma garagem para quatro. Por isso eu nem ando de ônibus, ando á pé, pois tenho tudo por perto. Aliás, não é esse o ideal, "viver a dois passos de tudo"? 
Pois muito bem, hoje eu precisei fazer uma consulta médica lá na Cohab. Confesso também que eu nunca sei onde é a Cohab, a Cohama, o Cohafuma... São tantos nomes de conjuntos habitacionais que eu nunca me entendi direito. Mas hoje eu fiz questão de aprender e fui perguntando para o moço sentado a meu lado no ônibus São Francisco / Integração Cohatrac... "Qual o nome desse bairro?", "esse é o Angelim", "aqui é o Cohafuma"... me respondia ele com a maior gentileza. Mas o que eu aprendi mesmo hoje nessa minha viagem no ônibus foi uma grande lição de valores. Vou contar o que aconteceu... 
Saí do consultório médico ás sete da noite depois de ter esperado quatro horas para ser 
atendida. A demora foi compensada pelo médico que soube me ouvir e me fez exame 
othorrino completo. De lá eu atravessei com dificuldade a pista da avenida principal – porque faixas de pedestre não há e sinal especial para pedestre também não - se vacilar os carros passam por cima. 
No terminal, esperei feito uma tola (dentro do circuito de ferro para a fila) o ônibus Circular n° 1 que me levaria á Praia Grande. Esse levou uns vinte minutos para chegar. Quando parou diante de mim, um monte de gente se precipitou ás portas e eu, que era a primeira da fila, quase nem embarcava tamanha era a falta de educação. Mas tudo bem, eu consegui entrar e ainda fui mais rápido que o jovem de cabelo pintado e me sentei na ultima poltrona ainda vaga. 
De frente á Ceasa, uma senhora imensa de gorda adentrou o ônibus com um enorme saco de laranjas. Laranjas rolaram... A dona desceu e empurrou para dentro do ônibus lotado um caixote de tomates e mais um saco enorme do que parecia ser farinha. De tão gorda ela não caberia em poltrona alguma e aquela destinada a deficientes físicos – geralmente mais espaçosa - estava ocupada por uma mocinha que fingia dormir. A senhora giga balofa então sentou-se na escada atrapalhando a passagem de quem devia entrar ou sair. Ela não parecia se incomodar. Passou todo o trajeto tirando meleca do nariz e cutucando as unhas sujas. Tão pouco se importava com o fato de uma laranja ou outra rolar pelo corredor do ônibus. Apesar de gorda, realmente gorda, tinha o rosto bonito e a pele lisa parecia ser macia. Eu admirava sua coragem e disposição : pobre, fodida, obesa... carregando sozinha aquele monte de mercadoria que certamente serviria a alimentar sua família. Senti meu coração amolecendo diante da situação daquela mulher. 
A mocinha com cara de anjo, linda, que estava ao meu lado, olhava também pra ela. 
"Que vida , não?" , eu disse. E ela fez uma carinha de compaixão. "Tem um monte de gente sacana por ai montada no dinheiro que não tem um terço da força dessa mulher", insisti em conversar... "É mesmo..." , ela concordou pensativa. Nessa, entra um rapaz distribuindo revistinhas de palavras-cruzadas aos pares para cada passageiro. Como eu não tinha dinheiro eu o agradeci e devolvi as que ele me entregou. Com estupidez ele tomou as revistas da minha mão e começou a falar para o pessoal do ônibus: "boa tarde senhoras e senhores, estou aqui vendendo esses livrinhos de palavras cruzadas e jogos de entretenimento para aumentar a cultura de vocês. Normalmente eles são vendidos a dois reais e cinquenta ou três reais e noventa, mas eu vendo a um real cada".
Eu pensei: pôxa, eu adoro palavra-cruzada será que eu tenho um real no meu bolso? 
Catei tudo que encontrei e tudo era noventa centavos. Pensei: se ele vende por um real deve aceitar noventa centavos. Mas não. Com a mesma estupidez, ele, que não vendeu uma revista sequer ali naquele ônibus, recusou minha oferta e me disse um não tão arrogante e categórico com uma cara de mau humorado que fiquei sem graça. 
A moça anjinha ao meu lado, me disse: "eu tenho dez centavos, você quer?". Ela me comoveu. Eu disse "muito obrigado, eu só queria ajudar o moço... Mas ele recusou...". Ela 
suspirou me confortando a alma ao dizer ... "nossa, que moço mais sem noção". Meu 
coração ficou pequenininho. "Em que mundo vivemos", pensei comigo. 
Nisso, entra uma outra obesa e senta-se á nossa frente. Vendo meu interesse, e o da moça, 
pela situação da senhora gorda mal instalada na escada do coletivo, começou a puxar 
conversa dizendo que aquela mulher era "bicho ruim" , que "mijava nas pessoas" e 
"nem as quatro filhas dela gostam dela". Olhei para a moça ao meu lado que olhou pra mim tão surpresa quanto eu. Nós ali falando de nossa admiração pela coragem e pela força de vontade da senhora gorda e a outra acabando com a sua reputação. Vai saber! 
Vai ver a gorda por quem sentíamos pena era mesmo o cão. Mas meu coração dizia que 
não. Quando o ônibus enfim chegou ao terminal da Praia Grande, todos se precipitavam 
para sair e literalmente passavam por cima da gorda. Eu disse "espera gente, vamos ajudá-la a descer as caixas..." . No que um moço se prontificou. Na calçada eu perguntei á ela se ela fazia aquele trajeto todos os dias. Ela me disse que não, que era só uma vez por semana. Pedi que me permitisse tirar uma fotografia dela e ela consentiu. A outra gorda, com a pele suja e os dentes podres, ficou ao lado observando. Eu agradeci á senhora que viajou na escada e a desejei tudo de bom. A outra, me vendo ir embora , num gesto suspeito e voz de serpente me sussurrou: "Ô me deixa ai um realzinho?!" . Eu ri e disse á ela: "Você falou mal da outra que estava ali dando duro e nada pediu nem pela foto que eu fiz ... Sinto muito mas eu só tenho noventa centavos". 
Atravessei a avenida em direção á Oficina Escola onde uma aula de Arte me propus a ouvir e agradeci á vida por ter me mostrado tantos lados de uma mesma moeda.