terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Para 2010: que Atins seja preservada até o ano 3000


Ir para Atins, ou voltar de Atins é quase sempre uma aventura agradável. Nunca deixa de ser uma aventura. A cada vez que volto de lá sinto me enriquecida. Em todos os sentidos. Até por que lá eu quase não gasto dinheiro. Levo castanhas do mercado da Praia Grande e compro água, tomo caldo de ovos em qualquer lugar a três reais ( no Buna tem caldo de ovos no cardápio, a sete reais - é claro e mais que compreensível) e durmo tranquilamente em uma barraca, desde que em terreno seguro, com um banheiro por perto e bastante silêncio. Lá eu aprendo um monte de coisas. Lá eu percebo o que acontece agora com o universo. Isso não tem preço. Desta vez eu fui para passar o réveillon com amigos. Graças á distância, em Atins pouca gente foi jogar lixo para Iemanjá. Conheci pessoas interessantes. A pousada estava completa. Casais, famílias, italianos, ingleses, maranhenses, franceses, israelenses, paulistas, mineiros... Meu filho brincou com crianças em todos os idiomas, nadando no igarapé, correndo na praia, alimentando os patos, se divertindo com o pavão, com iguanas, cachorros e gatos. Se enchendo os olhos de pássaros, e o ventre com verde e frutas. Há que se estudar a fundo a flora e a fauna desse lugar. Nas areias de Atins, me sinto em casa. Meu avô morava em Vitória e eu brincava no quintal em meio a essa mesma vegetação. Só que em Vitória não existe mais nenhum terreno de areia na praia de Camburí e as crianças de lá, talvez, só poderão provar o doce da frutinha cor de laranja em forma de barquinho, aqui no Maranhão. A virada do dia 31 de dezembro para o dia primeiro de janeiro passamos na praia. À meia-noite : maré vazia e lua cheia. De longe eu avistava a nuvem negra que escondia a lua e vinha lentamente em nossa direção. Senti o vento que anunciava a tempestade. Da praia eu via os relâmpagos chicoteando o mar. Temi por meu filho á beira d’água. Chamei e disse que viesse comigo, que deveríamos chegar á pousada antes que aquela chuva caísse e pegasse a gente ali naquele descampado. Como todo “adolescente” ele quis ficar “só mais um pouquinho”. Deixei que brincasse um pouco mais com as ondas, mas quando meus instintos de mãe e de sobrevivência me bateram dei um grito e ele veio. Andamos rápido pela areia fofa até chegar á encruzilhada do posto de saúde. Uma Toyota ia passando e nos deu carona. Foi chegar no rancho, escovar os dentes e entrar na barraca que a chuva despencou. Choveu a noite inteira, chuva grossa de ventania. O dia primeiro de janeiro de 2010 amanheceu chuvoso, mas logo o céu se abriu. Senti que o ano que começava trazia mesmo muita esperança. Quando os hóspedes com crianças foram embora, nós fizemos o mesmo no dia seguinte. E foi aí que a parte agradável da viagem sofreu interferência negativa. Estávamos nós sentadinhos na Toyota, apreciando tudo enquanto o motorista embarcava mais um, quando uma brasileira (desculpem, mas ela era maranhense de São Luis), sentada no primeiro banco, dá a última golada em uma cerveja e joga a latinha para fora do carro. Um jovem engenheiro goiano, vendo o desleixo da senhora, desce da Toyota e cata a latinha. Todo mundo percebeu a cara de decepção do rapaz (que viajava conosco) e perguntei inocentemente: Nossa! Quem fez isso?! A “culpada”, sentada lá na frente, portanto uma mulher de aparência estudada, virou-se para trás, se encrespou e disse: “fui eu purquê?”. Eu disse, espontâneamente: "maravilha, belo exemplo!".
Não fosse todo o lixo que encontramos por Atins, jogado por pessoas que pensam e agem como a referida, eu talvez não me espantasse com o perigo da arrogância do "você não sabe com quem está falando" que ela fez questão de juntar ao seu ar de autoridade... Seria terrível se ela dissesse que é professora universitária. Já pensou?! Eu de novo disse “maravilha”.
A pessoa, loira por opção, começou um discurso sem lógica dizendo que jogava sim porque o “puder público num faz, porque que eu vou fazê?». No que eu tentei convencê-la “mas minha senhora, cada um tem que fazer a sua parte. Você vem lá de São Luis para sujar os Lençóis Maranhenses? Por causa de gente como a senhora é que o Maranhão está nesse estado”. “Ah vai pra pôrra, ecologista de merda!», foi o que ela me disse de mais gentil.
Meus amigos pediram que eu não retrucasse e me calei. Pois a viagem inteira ela ficou tentando me provocar e ameaçando “ah que hoje aqui vai ter porrada”, dizia ela lá do banco da frente. Perguntei ao casal do segundo banco, que ria da situação, se viajavam com ela. “De jeito nenhum, a gente não anda com esse tipo de gente», me responderam rindo. Senti-me satisfeita e em momento algum as provocações da coitada me ferveram o sangue. Só que isso, somado aos casos horríveis de falta de educação dos cearenses e maranhenses que o dono da pousada (ele mesmo de tradicional familia maranhense) havia nos contado, me deixaram ainda mais preocupada com a situação do Brasil. E mais uma vez me certifiquei da ameaça da ignorância sobre nosso meio ambiente...
Atins...
Saúde!
Marilia de Laroche
MdL/01012010