sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Salve Marias!

Transcrevo aqui um texto meu que narra o ocorrido no dia 26 de fevereiro de 1986. Nessa época a ditadura ainda dava ordens e batia com força e nesse dia o que se queria era poder assistir ao filme "proibido", de Jean-Luc Godard... A cena que você vai ler agora aconteceu no Centro de Artes das Laranjeiras, no Rio de Janeiro... Era José Sarney (o que nunca fora eleito) presidente daquele Brasil que se refazia depois de 20 anos sob duro regime militar. A morte de Tancredo Neves fez o país perder o rumo. Hoje amargamos as consequências... Uma delas é o "estado" do Maranhão, vulgarmente conhecido como "Terra de Sarney". Rio de Janeiro, 26 de fevereiro de 1986... « Que fique claro que esse é um ato eminentemente político », disse Antônio Houaiss ao dar início á tentativa de se exibir “clandestinamente” Je vous salue Marie, no auditório do CAL no Rio de Janeiro. Mas a platéia exigia a apresentação do filme. Mais de quatrocentas pessoas entupiam o teatro com capacidade para cento e vinte. Era difícil convencer os mais afoitos que o importante não era que o filme fosse exibido ali, dublado em italiano, e sim que a partir daquele protesto ele fosse mostrado, normalmente, para todo o Brasil, nos cinemas que dispúnhamos. Como a “desobediência civil” de Gabeira e companheiros fora amplamente anunciada nos jornais, não se poderia esperar outra reação senão a intervenção em força por parte de quem tinha pacto assinado com o diabo da censura. Várias sugestões foram lançadas nas conversas de bastidores: “faltou perspicácia ao projeto”, “ao invés de se mostrar Maria em sala fechada, que vinte cópias do filme fossem distribuídas em pontos diferentes da cidade”, que “sejam exibidas em telões em praças públicas, para que todos possam ver!”. Face à certeza de uma invasão policial, pois camuflados lá estavam “todos os homens do presidente”, o clima era tenso. No auge dos protestos, um homem moreno, de terno, gravata, sapato branco e, detalhe, segurando uma maleta 007, se aproximou do palco. A dúvida tomou conta de quem mais perto dele se encontrava. Dando puxadinhas na barra do paletó do sujeito, alguém disse a este: _Me desculpa se incomodo, mas poderia nos dizer o que carrega nessa sua maleta?... Sabe... , é que nós temos medo que aconteça outro episódio como aquêêeêle...do Rio Centro... Sob risos contidos da platéia, o homem virou-se, de cara feia, e saiu sem dar resposta. Teatro entupido ficou no ar aquele receio de que ele, suposto “bomber man”, tivesse abandonado a maleta em algum canto dali. “Queremos ver o filme !”, insistia o público. Nervoso, Gabeira deu seu grito de independência e disse que se a polícia considerava aquele ato uma desobediência, “então nós vamos desobedecer!”, gritou Gabeira lá na frente. Foi aplaudido, ovacionado. A empresa contratada para a projeção preparava o equipamento e a atriz Lucélia Santos fazia circular uma lista que com certeza representaria, para quem a assinasse, responsabilidade pelos riscos e consequências da exibição. Mais do que isso, a lista significava mesmo era o protesto assumido contra a decisão do governo de censurar n’importe quoi. O filme começou a ser rodado... Em péssimas condições. No escuro, após dez minutos de imagens, lá de trás ouviam-se gritos, cada vez mais enfáticos: "Abaixo a Repressão, Abaixo a Repressão”. Ás claras pudemos ver os agentes federais surgindo teatro adentro, como nos velhos tempos da recém-abolida ditadura. Armada a confusão, a imprensa, que até então nada perdia, não sabia mais se o que a polícia levava era a fita, o equipamento ou tudo junto. A fita, alguém a escondeu nas calças de um cinegrafista. Pega daqui, pega de lá, a coisa virou uma zorra intelectualizada cercada por armas e policiais. O que não teria acontecido se aquele batalhão resolvesse usar seu poder negro e reluzente... Voz de prisão para Roberto Amaral. Nas escadarias do Centro de Arte das Laranjeiras (duzentos degraus em angulo agudo!) uma multidão tentava impedir que os federais saíssem assim, levando a expressão de um cineasta francês e sua versão da história de Jesus. Lá fora, “fechem a rua, não deixem passar!”, gritava o povo. A viatura, que nessa hora já estava pronta para partir assim que recebece o que tinha ido buscar, queimava óleo atiçando a multidão. O filme agora rodava nas mãos dos policiais. Na ilusão de que alguém seguisse sua linha de raciocínio, e num ato impensado de coragem, uma jovem entra no Opala chapa branca e agarra a fita das mãos do policial. Este a segura pelo pescoço dando-lhe safanões. A moça foi posta pra fora a pontapés. Nessa, Roberto Amaral é preso, e na Praça Mauá, uma comissão de inquérito já o aguardava. Soubemos depois que ele tinha sido agredido durante o interrogatório. Mais tarde disseram que foi tudo mentira. O Opala-viatura arrancou cantando pneus levando a cópia do filme e deixando para trás a multidão que repetia em coro: “Sarney, você é letrado, deixa de ser mascarado”. Tal era o slogan de protesto contra o vice que virou "presidente". A ordem era: esconder a ditadura com os “santos dogmas da igreja católica”. A mesma igreja que debaixo dos panos (sagrados!?) acumula poderes, terras, podridão, armas e riquezas. Essa mesma igreja das famílias bem compostas, tentaculares, que detêm emissoras de televisão e outros meios de comunicação e compram santos do barroco roubados das igrejas do país para decorar os salões de suas mansões para enfeitar cultos privados. Porque a Maria do cineasta Godard assusta tanto o governo brasileiro? Eu vi o filme em Paris: não tem nada de chocante! Não acredito ser possível que no país do carnaval a Maria de um francês seja mais imoral que os estragos causados pela cachaça, pelo coronelismo e pela corrupção. Aqui, sob o sol e inundações, milhares de Marias brasileiras dão a luz à Jesuses famintos e cada vez mais ignorantes. Je ne vous salue pas, surtout pas, Monsieur Sarney... Seu governo é duvidoso... É civil ou militar? Libera o filme de Godard! São Luis, vinte e três anos mais tarde vim morar no Maranhão, depois de 12 anos vivendo e trabalhando na França. Sarney voltou ao poder mais "poderoso" que "jamé", ressuscitou Renan Calheiros e Collor de Melo... Usa e abusa do sistema, da Mirante, da imagem e do Maranhão e conseguiu entregar a cabeça do Dr. Jackson Lago na bandeja para sua filha "governar". Pelo jeito não é só aqui no Maranhão que tanta gente tem medo dos Sarney! O momento é, portanto, bastante delicado, para não dizer desanimador, mas como não se perguntar: Sarney? e Lula?! Onde é que nós vamos parar?! Marilia de Laroche/ jornalista, humanista e ativista cultural >